
No vasto e enigmático território do hard/blues rock subterrâneo do início dos anos 1970, poucas relíquias geram tanto fascínio entre os colecionadores de vinil quanto o famigerado LP split A Night In The Cave. Lançado originalmente de forma ultra-limitada (e posteriormente resgatado por selos independentes de raridades como o Rockadelic), o disco divide seu espaço entre a banda Thump Theater no Lado A e o misterioso grupo Crank ocupando todo o Lado B.
O material do Crank — gravado originalmente em fitas de rolo (reel-to-reel) direto de sessões ao vivo e caóticas da época — soa como uma cápsula do tempo perfeita da energia crua que moldou a vertente mais pesada do rock norte-americano pré-metal.
Musicalmente, o Crank entrega um hard rock visceral temperado com fortes doses de blues elétrico e um toque progressivo sutil. É impossível ouvir as faixas sem notar a influência massiva de gigantes como Led Zeppelin e Black Sabbath. Os riffs de guitarra são cortantes, encorpados e empurrados por uma parede de amplificadores que valoriza a distorção valvulada e o timbre de baixo robusto, típicos daquela era de ouro do equipamento analógico.
As vocalizações seguem a escola de Robert Plant, alternando entre gemidos agudos, uivos blueseiros e uma entrega dramática que transborda testosterona e urgência juvenil.
A sequência de faixas do Crank (que na edição em vinil costuma abrir com a enérgica faixa muitas vezes associada ao repertório da banda) dita um ritmo implacável:
"Give You My Love" e "Want You Back" mostram a habilidade do grupo em transitar entre o ritmo cadenciado do blues tradicional e explosões de peso, onde a guitarra e a bateria flertam com a improvisação ao vivo. (Nota: Substituí "gratuitas" por "explosões de peso", pois o termo original parecia pejorativo no contexto de elogio à banda).
"Don't Push Me Away" mergulha de cabeça em uma atmosfera proto-metal, carregada de tensão e peso massivo na cozinha (baixo e bateria), evocando aquela sensação claustrofóbica e hipnótica que os fãs do gênero tanto adoram.
"NFTB" encerra a participação do grupo mantendo o nível de eletricidade alto, provando que a banda tinha um senso de dinâmica invejável para formações de sua época.
A Night In The Cave não é apenas um disco raro; é um documento arqueológico do rock de garagem e underground dos EUA no alvorecer dos anos 70. A produção é rudimentar, barulhenta e por vezes caótica — o que, ironicamente, constitui o seu maior charme. Para os entusiastas de raridades ao estilo A Fist Full of Myrrh, Poobah ou garimpos obscuros da vertente heavy psych / hard rock, o lado executado pelo Crank é uma audição obrigatória e viciante.
