Retomando
as escavações por informações do período jurássico do rock, aqui nessa
seção hoje a pauta é a fantástica Fanny Adams. Numa conexão direta
Austrália / Inglaterra, a banda começou com o australiano Vince Maloney,
guitarrista, que estava na Inglaterra e arredores entre 1966 e 1969
tocando com os Bee Gees, à época um grupo também australiano que
trafegava pelos caminhos mais domesticáveis do rock psicodélico – a
vertente chamada de sunshine pop.
Vince
já tinha estrada em sua terra natal antes disso, tendo participado da
primeira formação de uma banda famosa por lá durante os anos 60-70 –
The Aztecs. O guitarrista sentia sérias divergências musicais com o
grupo e resolveu montar uma nova banda, ainda na Inglaterra mesmo. Na
época, Vince estava começando a trabalhar em um disco solo. Passou
algum pouco tempo tocando com o trio Ashton, Gardner & Dyke,
onde foi chamado para assumir as guitarras do grupo, posto que
pertencia a ninguém menos que Steve Howe, do Yes, em uma curta passagem
que teve pela banda. O guitarrista conseguiu um contrato como artista
solo com a MCA e largou o trio. Para essa empreitada, ele preferiu
montar um grupo nos moldes de peso de Led Zeppelin e Cream a se lançar
como artista solo. E aí surgia o Fanny Adams.
O
primeiro convidado por Vince foi o baixista Teddy Toi, um amigo da
época do colégio, que já estava na Inglaterra tentando a vida como
músico de estúdio. Teddy estava na ativa desde o final dos anos 50 com
Sonny Day & the Sundowners e integrou também o The Aztecs em sua
segunda formação.
Em
junho de 70, Vince convida Johnny Dick, baterista, e Doug Parkinson,
vocalista, que estavam na Austrália, para se juntarem a ele. Esses dois
caras participaram de bandas razoavelmente bem sucedidas durante os
anos 60 na Austrália, especialmente Doug, que já na época era tido como
um dos grandes vocalistas juvenis do país. Entre diversos que grupos
que passaram, Johnny Dick e Doug Parkinson tocaram juntos no projeto
Doug Parkinson in Focus, e com esse nome chegaram até a emplacar um hit
no top 20 de lá no ano de 1968 e ganharam o primeiro prêmio numa
espécie de “batalha de bandas” no fim de 1969 (pela internet é possível
encontrar performances de Doug com sua banda In Focus).
Coincidentemente, o prêmio era uma viagem para a Inglaterra, e por lá
toparam a parada proposta por Vince Maloney, que parecia bem
interessante, afinal a MCA já era uma grande gravadora na época.
Juntos,
eles compuseram muito rapidamente o material para o disco. O material
tinha bastante potencial e a própria banda enxergava isso de uma
maneira bem grandiosa, com seus membros dando declarações de que o grupo
estouraria em pouco tempo e que seria um dos maiores do mundo, etc e
tal. Um certo “conceito prévio” se criou no público que os assistia,
que não via toda essa prepotência convertida em som. Isso acabou
jogando contra a banda.
Além
disso, a gravadora segurou o álbum e só o lançou em junho de 71, meses
depois de ter sido gravado. No fim de 70, eles voltaram para a
Austrália e lá tiveram de suportar a pressão por conta de suas próprias
declarações. Todos eles já tinham experimentado, de um modo ou de
outro, momentos bem sucedidos em suas carreiras, e a tensão na
convivência entre eles era considerável, pois as expectativas com a
aceitação da própria banda eram grandes.
O
Fanny Adams teve alguns momentos de glória em sua curta carreira, em
especial a apresentação no Myponga Festival, em janeiro de 1971, que
teve como atração principal o Black Sabbath, além de outras bandaças
australianas do período. No comecinho daquele ano, a MCA soltou um
compacto com as músicas “Got a Get Message to You” e “They´re All
Losers, Honey”, com pouca expressão na Inglaterra.
Alguns
poucos meses depois de terem voltado para a Austrália o grupo acabou, e
quando o disco saiu o Fanny Adams nem existia mais para promovê-lo. A
gota d’água talvez tenha sido a desastrosa apresentação na discoteca
Sidney’s Caesar’s Palace, onde um incêndio destruiu todo o equipamento
da banda.
Já
pouco tempo depois do fracasso do Fanny Adams, Doug Parkinson refez o
seu grupo In Focus. Todos continuaram suas carreiras musicais na
Austrália, com bandas de relativa expressão por lá, e Vince Maloney até
tocou com os Bee Gees (depois de trinta anos afastado da banda) em um
concerto na Austrália.
O disco.
O
único disco do Fanny Adams, que celebra o nascimento e a morte
prematura da banda, é tão incisivo quanto batidas nas portas dos
ouvidos. O som como um todo é rude, urgente, mal encarado; é como uma
peça rústica – há quem queira ainda tratá-la, aparar as arestas e
envernizá-la, mas há quem veja o charme justamente na naturalidade de
seu estado inacabado e ainda não domesticado.
É um som que inspira força, vontade, veias e artérias em alta pressão. “Ain’t no Loving Left” é um blues despacho
que exorciza todos os impulsos sexuais logo no início do trabalho. Os
riffs ao longo do disco são maquinados com uma energia blueseira, por
sobre uma conjuntura rítmica nova e frenética, que distingue o aqui
nascente hard rock do vigente blues rock britânico, sugando alguns
quilowatts a mais, para amplificar a uma dimensão maior as explosões
mentais da moçada.
A
bateria demonstra o som esgotado de suas peles atacadas pelo limite da
força, sem esquecer a inteligência rítmica para dosar socos e chutes. A
guitarra entra rasgante em perfeita complementação às frequências do
baixo, no limiar da saturação. A exceção da distinta e fantástica
vocalização de Doug Parkinson, o paredão sonoro do Fanny Adams é
monolítico e está alicerçado na sonoridade agressiva e valvulada do
começo dos anos 70. A voz emana de todos os centímetros quadrados e,
sua respiração cadenciada pulsa de vibrações todo o ar ao redor. Mesmo
os momentos mais melódicos do disco são executados com uma força
devastadora, que não descansa os tímpanos.
O
disco foi lançado na época pela MCA e relançado em formato de CD pela
Lizard Records, em 1998. O LP da época é raríssimo de ser encontrado. Resenha: Ronaldo Rodrigues.
Integrantes.
Vince Melouney (Guitarra & Vocais)
Doug Parkinson (Vocais)
Teddy Toi (Baixo)
Johnny Dick (Bateria)
01. Ain't No Loving Left (6:40)
02. Sitting On Top Of The Room (9:48)
03. Yesterday Was Today (4:25)
04. Got To Get A Message To You (4:35)
05. You Don't Bother Me (4:42)
06. Mid Morning Madness (5:25)
07. They're All Losers Honey (4:23)
(320Kbps)
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