
Rita
Lee Jones de Carvalho OMC • ORB (nascida Rita Lee Jones; São Paulo, 31
de dezembro de 1947 – São Paulo, 8 de maio de 2023) foi uma cantora,
compositora, apresentadora de televisão e escritora brasileira.
Conhecida como a "Rainha do rock brasileiro", foi uma das mulheres que
mais vendeu discos, foram 55 milhões de discos vendidos, sendo assim a
segunda artista feminina mais bem-sucedida em vendas no Brasil e a
quinta no geral, atrás de Tonico & Tinoco, Roberto Carlos, Nelson
Gonçalves e Angela Maria.
Construiu uma carreira que começou com o
rock, mas que ao longo dos anos flertou com diversos gêneros, como a
psicodelia, durante a era do tropicalismo, o pop rock, disco, new wave,
pop, bossa nova e eletrônica, criando um hibridismo pioneiro entre
gêneros internacionais e nacionais.
Rita foi considerada uma das
musicistas mais influentes do Brasil, sendo referência para aqueles que
vieram a usar guitarra a partir de meados dos anos 1970. Ex-integrante
do grupo Os Mutantes (1966-1972) e do Tutti Frutti (1973-1978),
participou de importantes revoluções no mundo da música e da sociedade.
Suas canções, em geral regadas com uma ironia ácida ou com uma
reivindicação da independência feminina, tornaram-se onipresentes nas
paradas de sucesso, entre as mais populares estão "Ovelha Negra", "Mania
de Você", "Lança Perfume", "Agora Só Falta Você", "Baila Comigo",
"Banho de Espuma", "Desculpe o Auê", "Erva Venenosa", "Amor e Sexo",
"Flagra" e "Doce Vampiro". O álbum Fruto Proibido (1975), lançado com a
banda Tutti Frutti, é comumente visto como um marco fundamental na
história do rock brasileiro, inclusive considerado um dos 100 melhores
álbuns da história da música brasileira pela revista musical Rolling
Stone Brasil, enquanto a versão americana da mesma publicação o
classificou entre os melhores da história do rock latino-americano.
Em
1976 iniciou um relacionamento amoroso com o multi-instrumentista e
compositor Roberto de Carvalho, que foi o parceiro da maioria das
composições de Rita. Nesse período, ela lançou uma série de discos —
como Rita Lee (1979), Rita Lee (1980), Saúde (1981), Rita Lee e Roberto
de Carvalho (1982) —, que se tornaram grandes sucessos de vendas e
consolidou sua popularidade. O casal teve três filhos, entre eles o
guitarrista Beto Lee, que acompanhava os pais nos shows. Rita era
vegana, defensora dos direitos dos animais, das mulheres e da comunidade
LGBT. Com uma carreira de sessenta anos, a artista passou da inovação e
do gueto musical dos anos 1960 e 1970, para as baladas românticas de
muito sucesso nos anos 1980 e uma revolução musical, apresentando-se com
inúmeros artistas, entre eles Elis Regina, João Gilberto e a banda
Titãs. Em outubro de 2008, a revista Rolling Stone promoveu a lista dos
cem maiores artistas da música brasileira, onde ela ocupa o 15° lugar.
Em 2023, Rita, que havia sido diagnosticada com câncer de pulmão dois
anos antes, morreu aos 75 anos, em 8 de maio.
Infância e início na música.
Nascida
na véspera de Ano-Novo, em uma família de classe média paulistana, Rita
é a filha mais nova do dentista Charles Fenley Jones (1904-1983),
paulista descendente de imigrantes norte-americanos confederados do
Alabama e do Tennessee estabelecidos em Santa Bárbara d'Oeste, e de
Romilda Padula, apelidada Chesa (1904-1986), também paulista, filha de
imigrantes italianos da região do Molise, no sul da Itália. Seus pais
tinham outras duas filhas: Mary Lee Jones e Virgínia Lee Jones. Lee é um
nome composto com que o pai quis registrar todas as filhas, em
homenagem ao general Robert E. Lee, do exército confederado
norte-americano. Originalmente, seu primeiro nome era planejado para ser
Bárbara, em homenagem à santa, mas na hora do batizado resolveram
homenagear a avó materna, que se chamava Clorinda, mas tinha o apelido
de Rita.
Ela nasceu e cresceu no bairro da Vila Mariana, onde
viveu até o nascimento de seu primeiro filho. Em entrevistas, revelou
que esse bairro lhe era especial, já que lá tem uma grande parte de
todas as melhores lembranças de sua vida. A artista foi educada no
colégio franco-brasileiro Liceu Pasteur; era poliglota e falava
fluentemente português, inglês, francês, castelhano e italiano. Chegou a
ingressar no curso de Comunicação Social na Universidade de São Paulo,
em 1968, na mesma turma da atriz Regina Duarte. Assim como Regina,
abandonou o curso no ano seguinte.
Durante a infância teve aulas
de piano com a musicista clássica Magdalena Tagliaferro. Não pensava em
ser cantora de rock, mas em ser atriz de cinema, veterinária ou a
profissão que seu pai queria, dentista. Suas primeiras influências
musicais foram Elvis Presley, Neil Sedaka, Paul Anka, Peter, Paul and
Mary, Beatles, Rolling Stones, mas também escutava música brasileira
como Cauby Peixoto, Angela Maria, Tito Madi, João Gilberto, Emilinha
Borba, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira e Maysa por influência dos
pais.
Na adolescência passou a se interessar por música e compôs
suas primeiras canções. Junto de alguns amigos começou a se apresentar
em clubes da região como componente do "Tulio's Trio". Em 1963 formou um
conjunto musical com mais duas garotas, as Teenage Singers, que faziam
pequenos shows em festas colegiais. No ano seguinte elas conheceram o
trio masculino Wooden Faces. Nesse mesmo ano, fez sua primeira gravação
nos vocais para um álbum de Prini Lorez. Teenage Singers e Wooden Faces
juntaram-se, formando o Six Sided Rockers, banda que depois passou a se
chamar "Os Seis" e que chegou a gravar um disco compacto, com duas
músicas.
Depois da saída de três componentes, sobraram Rita e os
irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista. O trio passou a se chamar Os
Bruxos. Entretanto, o trio não estava satisfeito com esse nome e queriam
mudá-lo, antes da apresentação do grupo, na estreia do programa O
Pequeno Mundo de Ronnie Von, da TV Record (1966). Segundo Carlos Calado,
a ideia do nome "Os Mutantes" veio de uma brincadeira irônica de
Alberto Helena Júnior, produtor do programa, com Ronnie Von, que, na
época, estava lendo O Império dos Mutantes, de Stefan Wul e não falava
de outro assunto. "Vocês ainda estão procurando um nome para o conjunto
dos meninos? Por que não Os Mutantes?" Ronnie Von gostou da ideia de
Alberto Helena e levou-a ao grupo, que a aprovou imediatamente.
Biografia e carreira.
Os Mutantes e primeiros álbuns solo, 1966-1972.
Por
um período de seis anos, Rita foi, com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias,
integrante da banda Os Mutantes, cantando, tocando flauta e percussão,
além de performances bissextas no sintetizador, no banjo e manipulando
bizarrices como um gravador portátil (como na música "Caminhante
Noturno"), uma bomba de dedetização (em "Le Premier Bonheur du Jour") e
sendo letrista. Em 1967, a banda acompanhou Gilberto Gil no III Festival
de Música Popular Brasileira, da TV Record, na apresentação da canção
"Domingo no Parque".
Foram gravados seis álbuns, tendo o
primeiro, de 1968, como uns dos mais importantes da história da música
brasileira e que deram origem a hits como "A Minha Menina", "Dom
Quixote", "Balada do Louco", "2001 (Dois Mil e Um)" e "Ando Meio
Desligado". De 1968 e 1972 foi casada com o companheiro de banda,
Arnaldo. O divórcio foi assinado somente em 1977.
Acompanhada dos
componentes dos Mutantes, gravou dois discos solo. O primeiro foi Build
Up (1970) — contendo algumas canções em parceria com Arnaldo — que,
originalmente, era o repertório de um show feito exclusivamente para um
evento empresarial (a Fenit), em São Paulo). Desse disco saiu seu
primeiro single solo, "José" (uma versão de Nara Leão para a canção
francesa "Joseph", de Georges Moustaki). O segundo disco, Hoje é o
Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972), foi gravado com o seu nome,
pois a banda já havia lançado um álbum naquele ano e, nos termos do
contrato com a gravadora, não lhe era permitido outro lançamento. Com
isso, Os Mutantes gravaram, mas só Rita aparece nos créditos.
Em
decorrência do fim de seu casamento e de discordâncias com os rumos que a
banda estava tomando, a cantora foi expulsa dos Mutantes pelo próprio
Arnaldo. Dentre distintas histórias e controvérsias, ela alega que seus
companheiros achavam que ela não tinha o virtuosismo requerido pelo rock
progressivo, novo interesse da banda. A informação de Rita acabou por
se gerar uma grande discussão. Alguns diziam que ela teria saído do
grupo. Entretanto, em 2007, Arnaldo admitiu, em entrevista: "Mandei a
Rita embora dos Mutantes". No livro Rita Lee: uma autobiografia, de
2016, ela contou em detalhes como se deu a notícia de sua saída:
"Minha
saída do grupo aconteceu bem nos moldes de 'o noivo é o último a
saber', no caso, a noiva. Depois de passar o dia fora, chego ao ensaio e
me deparo com um clima tenso/denso. Era um tal de um desviar a cara pra
lá, o outro olhar para o teto, firular instrumento e coisa e tal. Até
que Arnaldo quebra o gelo, toma a palavra e me comunica, não nessas
palavras, mas o sentido era o mesmo, que naquele velório o defunto era
eu. 'A gente resolveu que a partir de agora você está fora dos Mutantes
porque nós resolvemos seguir na linha progressiva e você não tem calibre
como instrumentista.' Uma escarrada na cara seria menos humilhante. Em
vez de me atirar de joelhos chorando e pedindo perdão por ter nascido
mulher, fiz a silenciosa elegante. Me retirei da sala em clima
dramático, fiz a mala, peguei Danny (a cachorra) e adiós."
Tutti Frutti e consagração nacional, 1973-1978.
Formou
com a amiga Lúcia Turnbull uma dupla no estilo folk rock, Cilibrinas do
Éden, cuja única gravação, ao vivo, no festival Phono 73, foi lançada
mais de 35 anos depois. Rita e Lúcia desistiram da dupla e formaram a
banda Tutti Frutti, com Luis Sérgio Carlini e Lee Marcucci. Rita, além
de cantar, tocou piano, sintetizador, gaita e violão. Um contrato com a
gravadora Philips foi assinado, mas essa exigiu que o grupo assinasse
como "Rita Lee & Tutti-Frutti". O que seria o primeiro disco do
grupo não foi lançado pela gravadora por problemas com a censura e com
os executivos, que o consideraram "alternativo demais".
Eles
voltam ao estúdio e Atrás do Porto Tem uma Cidade foi gravado e lançado
em 1974. O disco, lançado em junho, foi muito influenciado pelo blues
rock dos Rolling Stones e pelo glam rock de David Bowie, e teve como
sucesso os singles “Mamãe Natureza”, primeira composição de Rita
pós-Mutantes, “Pé de Meia” e “Menino Bonito”. Porém, como o resultado
final do álbum acabou não agradando a gravadora, foram convocados os
bateristas Paulinho Braga e Ivan Conti para fazer novas bases. Além
disso, sem o conhecimento da banda, foi contratado o produtor Marco
Mazzola, que alterou demasiadamente os arranjos do disco, em especial da
música “Menino Bonito”, o que acabou gerando vários descontentamentos.
Insatisfeita
com as interferências excessivas e sentindo-se desprezada pela
Phonogram, que concentrava seus esforços no lançamento do primeiro disco
solo de João Ricardo, Rita decide sair da gravadora. Em janeiro de
1975, a banda se apresentou no primeiro dia do festival Hollywood Rock; o
show marcaria a despedida de Lúcia Turnbull.
Em junho de 1975
foi lançado aquele que é considerado a obra-prima de Rita, o álbum Fruto
Proibido, pela Som Livre. O disco, que contém os sucessos "Agora Só
Falta Você", "Esse Tal de Roque Enrow" e "Ovelha Negra", tornou-se um
clássico do rock brasileiro, vendendo mais de 200 mil cópias na época e
dando a Rita o título de "Rainha do rock brasileiro". Com as principais
faixas do disco tocando nas rádios, a banda saiu em turnê pelas
principais capitais do Brasil, de norte a sul, algo inédito para os
padrões do rock nacional de então. A turnê acabou no Festival de
Saquarema de 1976, quando a banda tocou no último dia como atração
principal.
O terceiro disco, Entradas e Bandeiras, foi lançado em
1976, com os singles "Coisas da Vida", "Corista de Rock" e "Com a Boca
no Mundo". O disco também contava com a faixa "Bruxa Amarela", que foi
composta por Raul Seixas e Paulo Coelho. Devido a uma crise de estresse,
Rita ficou afastada do processo de mixagem deste disco, fato que
ocasionou um som mais pesado, com a nítida predominância da guitarra de
Carlini. No mesmo ano, conheceu o músico carioca Roberto de Carvalho,
iniciando uma relação amorosa que posteriormente se tornaria uma
parceria profissional.
Em agosto de 1976, durante sua primeira
gravidez e morando com Roberto, foi presa por porte e uso de maconha. Na
verdade, tal episódio, considerado um dos mais truculentos da ditadura
militar, foi um ato do regime com a finalidade de servir de exemplo à
juventude da época, já que a cantora alegou que tinha deixado de usar
drogas por causa da gravidez e que o que foi encontrado na época seriam
restos usados por amigos e frequentadores da casa.
Abalada e sem
dinheiro, lançou em março de 1977 a polêmica "Arrombou a Festa" — música
composta em parceria com Paulo Coelho que criticava o cenário da MPB na
época — cujo compacto vendeu mais de 250 mil cópias. Em março de 1977
nasce Beto Lee, primeiro filho da artista, seguido por João, em 1979, e
Antônio, em 1981.
Após ficar livre da prisão domiciliar, Rita
saiu em turnê com Gilberto Gil no show denominado Refestança, que passou
por oito capitais brasileiras entre outubro e novembro de 1977. O show
foi registrado em disco, lançado pela Som Livre.
Em 1978, a banda
lançou o disco Babilônia, que produziu os singles bem-sucedidos
"Jardins da Babilônia", "Agora é Moda", "Eu e Meu Gato" e a futurista
"Miss Brasil 2000". Depois do lançamento deste, a banda se desfez.
Carlini, insatisfeito com sua posição secundária, resolveu deixar o
grupo e levar consigo o nome Tutti Frutti, que havia sido registrado por
ele. Assim, Rita reformulou a banda e colocou na estrada o show Rita
Lee & Cães e Gatos, nome dado devido às brigas internas durante os
ensaios. Essa apresentação deu origem a um dos primeiros álbuns piratas
do Brasil, hoje, artigo de colecionador.
Início da parceria com Roberto de Carvalho, 1979-1990.
Em
1977, Rita já havia manifestado desgosto pelos radicais do rock e da
MPB, dizendo que não se considerava uma roqueira radical. A partir de
1979, ela e Roberto começaram a fazer discos e shows juntos — num
formato "dupla dinâmica" — e inauguram uma fase superpop, de enorme
empatia popular. Aconteceram então espetáculos e diversos especiais para
a TV Globo. O primeiro trabalho em disco da dupla foi o álbum Rita Lee,
de 1979, com os sucessos "Mania de Você", "Chega Mais" e "Doce
Vampiro". O álbum se tornou um divisor de águas na carreira da artista,
trazendo uma notável mudança de sonoridade, saindo do rock para uma
linguagem pop e vendendo na época 500 mil cópias.
Quando muito se
especulava se Rita conseguiria repetir o sucesso alcançado no disco
anterior, é lançado em 1980 o álbum Rita Lee, mais conhecido pelo seu
hit "Lança Perfume". Do repertório, também fazem parte canções como
"Baila Comigo", "Nem Luxo, Nem Lixo", "Ôrra Meu", "Shangrilá" e
"Bem-Me-Quer". O disco foi um enorme sucesso, vendendo 750 mil cópias no
Brasil e 200 mil cópias na Argentina, e aparecendo em paradas de
sucesso da França e dos Estados Unidos, como a Billboard. O então
príncipe Charles da Inglaterra passa-se por excêntrico ao dizer que sua
cantora favorita seria Rita Lee.
Em 1981, gravam o álbum Saúde,
com a faixa-título, "Atlântida", "Banho de Espuma", e "Mutante", disco
que já saiu com 400 mil cópias antecipadas vendidas. Participou do
especial Mulher 80 (TV Globo, 1979). O programa, dirigido por Daniel
Filho, exibiu uma série de entrevistas e musicais cujo tema era a mulher
e a discussão do papel feminino na sociedade de então, abordando esta
temática no contexto da música nacional.
Em 1982 lançou Rita Lee e
Roberto de Carvalho, com "Flagra", "Só de Você", "Vote em Mim", "Barata
Tonta" e "Cor de Rosa Choque". Bombom (1983) teve os hits "Desculpe o
Auê" e "On the Rocks" e ainda como temas de novela "Raio X" e "Bobos da
Corte". Rita e Roberto (1985) trouxe "Vírus do Amor", "Yê Yê Yê",
"Noviças do Vício" e "Vítima". Neste mesmo ano, apresenta-se na primeira
edição do Rock in Rio, que marcou sua volta aos palcos após dois anos.
Ainda em 1985, Rita participou como uma das juradas do Festival dos
Festivais, em que foi júri ao lado de personalidades como Marcelo Tas e
Malu Mader.
Flerte Fatal chega em 1987 com "Bwana", "Xuxuzinho",
"Brazix Muamba" e "Pega Rapaz". O álbum precedeu uma turnê onde Rita se
despediu de shows em grandes ginásios, percorreu todo o país,
finalizando com apresentações na Europa e Estados Unidos, em 1988. Zona
Zen veio no mesmo ano, com "Livre Outra Vez", "Independência e Vida",
"Zona Zen" e "Nunca Fui Santa". Ela ainda passou por intervenções
cirúrgicas na época: uma devido a calos nas cordas vocais e outra na
face, devido a um acidente de carro.
Em 1990 lançou o álbum Rita
Lee e Roberto de Carvalho, que teve entre suas faixas a música "Perto do
Fogo" (composição de Rita e Cazuza) e também La Miranda — uma ode à
Carmen Miranda, que foi tema de abertura da telenovela Lua Cheia de Amor
— e "Esfinge".
Carreira solo e retorno de Roberto, 1991-2003.
Em
1991, Rita separou-se profissionalmente de Roberto, iniciando a
bem-sucedida turnê voz e violão Bossa 'n' Roll. No mesmo ano, estreou o
TVleezão, seu programa na MTV Brasil. Em seguida, lança o disco Rita Lee
em 1993, dedicado a um rock'n'roll mais purista. O casal só viria a
dividir o palco novamente em 1995, durante a turnê do álbum A Marca da
Zorra.
Ainda em 1995, a música "Vítima" foi tema de abertura da
novela A Próxima Vítima. Em dezembro de 1996, Rita realizou seu
casamento civil com Roberto de Carvalho, passando a assinar Rita Lee
Jones de Carvalho. Em 1997, lança o álbum Santa Rita de Sampa, com "Dona
Doida", que foi tema de abertura da novela Zazá. O álbum possui ainda
"Homem Vinho", uma homenagem para Caetano Veloso. Em 1998, lança seu
Acústico MTV, com a participação de Cássia Eller em "Luz del Fuego",
Paula Toller na canção "Desculpe o Auê", Titãs em "Papai, Me Empresta o
Carro" e Milton Nascimento em "Mania de Você".
Em 2000, lança o
álbum 3001, que teve faixas escritas com Tom Zé e Itamar Assumpção, além
dos sucessos "Erva Venenosa", "Pagu", "O Amor em Pedaços" e sua
faixa-título (uma continuação da canção "2001", dos Mutantes). A turnê
internacional que durou de 2000 a 2001 ganhou um especial de fim de ano
na Rede Bandeirantes, contando com as participações de Caetano Veloso,
Zélia Duncan, Paula Toller e Pato Fu.
Logo após, Rita grava um CD
com releituras de clássicos dos Beatles. O álbum é lançado como Aqui,
Ali, Em Qualquer Lugar — no exterior, Bossa'n Beatles — misturando bossa
nova, rock e inspirações no forró. A roqueira então inicia a turnê
internacional Yê Yê Yê de Bamba que durou de 2001 a 2002, percorrendo
Brasil, Estados Unidos e alguns países da América Latina, como a capital
argentina Buenos Aires, onde fez apresentações como na casa de shows
Luna Park, no que foi considerada a consagração de sua carreira na
Argentina.
Em 2001 e 2002, lança dois álbuns de compilação, Para
Sempre e Novelas, sendo este último somente faixas suas que ficaram
famosas como aberturas de telenovelas. Ainda em 2002, torna-se parte do
elenco principal do programa da GNT Saia Justa, ao lado de Fernanda
Young e Marisa Orth. Em 2003, lança o álbum Balacobaco, com a famosa
faixa "Amor e Sexo".
Reza e aposentadoria, 2010-2014.
Em
2010, iniciou sua nova turnê, que estreou em Belo Horizonte, na qual
cantou sucessos que estavam fora de seu repertório. O show percorreu
várias cidades do Brasil como São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro,
além de ter passado por Buenos Aires, com apresentação no teatro Gran
Rex. Em 2012, Rita anuncia sua aposentadoria dos palcos em seu show de
estreia no Circo Voador no Rio de Janeiro, devido à sua fragilidade
física: "Me aposento dos shows, mas da música nunca", explicou a cantora
no seu Twitter.
Em janeiro de 2012, durante o que seria a última
apresentação, no Projeto Verão em Sergipe, Rita expressou sua
indignação com a ação da polícia militar, que agiu de modo agressivo com
seu público. Acusada de desacato à autoridade, a cantora foi
encaminhada a uma delegacia após o show para prestar depoimento, porém
liberada em seguida. A cantora alegou ter falado pelo "calor das
emoções", e por ter achado a ação dos policiais "truculenta e
desnecessária".
No Carnaval de 2012, desfilou pela escola de
samba paulista Águia de Ouro, cujo tema foi a Tropicália. Desfilaram
também outros cantores do movimento, como Caetano Veloso e Gilberto Gil,
além de cantores como Wanderléa, Cauby Peixoto e Angela Maria. Rita
homenageou a atriz Leila Diniz no desfile.
Após alguns anos sem
gravar músicas inéditas, tendo seu último álbum sido Balacobaco, em
2003, Rita anuncia o lançamento de seu então novo álbum, Reza. Em
fevereiro de 2012, lançou o primeiro single promocional do álbum. Pouco
tempo depois a canção ultrapassou o sucesso "Ai, Se Eu Te Pego", de
Michel Teló, no número de downloads do iTunes Brasil. No mês seguinte, a
música entrou para a trilha sonora da telenovela Avenida Brasil, da TV
Globo.
Em novembro de 2012, fez um show que marcou sua volta aos
palcos, com apresentação no Green Move Festival, no qual também se
apresentaram as bandas Titãs e Jota Quest. Na apresentação, a cantora
causou nova polêmica ao abaixar a calça e virar-se para o público. Em
janeiro de 2013, participou do show que fez parte da comemoração dos 459
anos da cidade de São Paulo, no Vale do Anhangabaú. "Daqui eu não
saio", disse Rita, sobre a cidade em que nasceu.
Em abril de
2013, concedeu uma rara e franca entrevista à revista Marie Claire, em
que disse que o grande tabu da mulher atual é o envelhecimento. "Para
envelhecer com dignidade, a mulher tem de ter desapego. É muito
complexo!". Em março de 2014 decidiu deixar de pintar os icônicos
cabelos vermelhos e assumir os fios grisalhos. "Quero ficar anônima",
disse ela.
Outros projetos, 2014-2023.
Em
2014, foi homenageada com o musical de teatro Rita Lee Mora ao Lado,
baseado no livro homônimo de Henrique Bartsch e estrelando Mel Lisboa.
Rita assistiu ao musical e elogiou a performance de Mel, que caiu no
choro ao ver a cantora na plateia. A atriz ainda ganhou o Prêmio Quem,
na categoria "Melhor Atriz de Teatro". Emocionada, ela fez o discurso
chorando ao assistir a um vídeo de Rita durante a premiação, a
parabenizando pela conquista.
Em 2015, chegou às lojas uma caixa
com vinte álbuns de sua discografia e um CD com raridades. Em 2016 foi
lançada sua autobiografia Rita Lee: uma autobiografia, pela Globo
Livros. O lançamento foi em São Paulo. Rita concedeu uma entrevista
sobre o livro e sobre sua vida mais reclusa: "O maior luxo da vida é dar
amor aos bichos e ter uma horta”. Além de tornar-se um dos títulos mais
vendidos do país, o livro colecionou críticas elogiosas. A artista foi
agraciada pela APCA como melhor autora de 2016 e também pelo grande
prêmio da crítica por seus serviços prestados à música.
Em 2021,
foi lançada "Change", canção com parceria de Roberto de Carvalho e Gui
Boratto, sua primeira música inédita em oito anos. A faixa integrou a
trilha sonora da telenovela Um Lugar ao Sol. Em 2022, na 23ª edição do
Grammy Latino, Rita foi laureada com um Lifetime Achievement Award, que
homenageia "artistas que fizeram contribuições significativas à
indústria fonográfica". A cerimônia, ocorrida no mês de novembro, contou
com a participação de nomes como Luísa Sonza, Giulia Be, Paula Lima e
Manu Gavassi.
Em 2023, a artista anunciou o lançamento do livro
Rita Lee: outra autobiografia, também pela Globo Livros. No livro, ela
narra detalhes de seu tratamento contra um câncer de pulmão,
diagnosticado em 2021.
Vida pessoal.
Família.
Em
1976, começou um relacionamento amoroso com o multi-instrumentista e
compositor Roberto de Carvalho, que até o fim da carreira de Rita foi o
parceiro da maioria de suas canções. Tiveram três filhos. Beto Lee,
primeiro filho da artista, nascido em 1977, seguido por João em 1979, e
Antônio em 1981. Rita era vegana e defensora dos direitos dos animais.
Relação com São Paulo.
Rita
Lee nasceu e cresceu na Vila Mariana, um bairro tradicional na Zona Sul
da cidade de São Paulo. Na Vila Mariana a cantora cresceu e viveu
durante sua infância e adolescência (até os 19 anos), em um casarão na
rua Joaquim Távora. Durante sua juventude, ela explorou diversos locais
da cidade, desde a Rua Augusta, o Parque do Ibirapuera, o Estádio do
Pacaembu até em Interlagos, locais que são frequentemente mencionados em
suas músicas. Em "Mania de Você", por exemplo, ela cantou em um show na
cidade "Sampa, você me dá água na boca", evidenciando sua admiração
pela metrópole. A cantora passou um tempo morando na Serra da
Cantareira, onde tentou viver em uma comunidade hippie com seus irmãos.
Além
da Vila Mariana, Rita também viveu em outros bairros, incluindo a
Pompeia, onde ela se envolveu com o conjunto Os Mutantes. No bairro da
Zona Oeste paulistana, especificamente na Rua Venâncio Aires, nasceu o
grupo, que teve Rita como membro até 1972. O bairro também é mencionado
na canção “Orra meu”, onde Rita expressa seu amor pela localidade: “Pego
na guitarra e não largo até a Pompeia gritar“.
Outras músicas
que citam a cidade: “Caminhante Noturno” (1969), “De Novo Aqui, Meu Bom
José” (1972), “Lá Vou Eu” (1976), “Lady Babel” (1976), “Vírus do Amor”
(1985), “Vítima” (1985), “Gloria F” (1985), “Brasyx Muamba” (1987),
“Venha Até São Paulo” (1993) e “Santa Rita de Sampa” (1997). Nessas
músicas a compositora cita: o Largo do Arouche, o bairro da Liberdade, a
Praça da Sé, o Rio Tietê, o Sport Club Corinthians Paulista além do
Viaduto do Chá.
Em uma semana do mês de abril do ano 2000 ocorreu
um episódio notável que ilustra essa conexão com a cidade, foi o
desaparecimento de seu cachorro, Mike, no Jardim São Bento, bairro nobre
localizado próximo ao bairro de Santana, Zona Norte. A cantora foi ao
Programa Domingo Legal de Gugu Liberato no SBT fazer um pedido de
socorro na TV aberta ao vivo. A operação de resgate do cachorrinho fez
com que a cantora "invadisse" outros programas de TV e rádio naquela
semana. "Programa do Jô", "Pânico", o hit parade da Transamérica e os
vespertinos da 89FM a receberam, e prometia uma recompensa a quem
localizasse seu pet de quatro anos de idade. O incidente teve um
desfecho feliz quando Leandro Lehart, músico e residente do mesmo
bairro, encontrou o cachorro e o devolveu à cantora. Este evento foi
amplamente divulgado na mídia local e reforça o senso de comunidade que
permeia várias partes da cidade.
Em 2013, durante o início da
turnê que celebrava seus 50 anos de carreira, Rita Lee expressou seu
amor por São Paulo de maneira marcante. Em um concerto no Vale do
Anhangabaú, ela se apresentou envolta na bandeira da cidade, que na
época comemorava 459 anos. Durante o evento, ela afirmou: "Eu amo essa
cidade. Moro aqui há 67 anos! Daqui eu não saio. (...) Se não fosse São
Paulo, o Brasil seria bem menos". Estes comentários refletem a profunda
relação afetiva que ela mantinha com a cidade, um sentimento que foi
poeticamente capturado por Caetano Veloso ao descrevê-la como "a mais
completa tradução" de São Paulo em sua canção "Sampa". Foi chamada
também de "Santa Rita de Sampa".
O legado de Rita Lee foi
imortalizado não apenas através de sua música, mas também por meio de um
mural na Vila Mariana instalado em 2023. Criado pelos artistas Paulo
Terra, Pedro Terra e Eraldo Moura, o painel artístico está localizado na
Rua Domingos de Morais e apresenta duas representações de Rita Lee,
destacando diferentes fases de sua carreira. Este tributo visual reforça
ainda mais sua conexão com o bairro onde nasceu e cresceu.
Rita
Lee faleceu em 8 de maio de 2023, e sua morte foi seguida por um
velório no Planetário Professor Aristóteles Orsini, localizado no
Ibirapuera, um local que simboliza sua ligação contínua com São Paulo.
As circunstâncias de sua despedida, assim como as homenagens póstumas,
sublinham o impacto duradouro de sua figura na cultura brasileira.
Em
abril de 2024 houve um projeto de Lei, proposto por uma vereadora
paulistana, que visava a inclusão do nome de Rita Lee no Parque
Ibirapuera, que passaria a se chamar “Parque Ibirapuera – Rita Lee”. O
projeto foi modificado e o prefeito da cidade sanciona lei que dá nome
de Rita Lee a antiga Praça da Paz, localizada no mesmo parque, chamada
"Praça da Paz - Rita Lee". Em julho do mesmo ano a Câmara Municipal de
São Paulo homenageou a cantora instituindo o dia 22 de maio como o Dia
de Rita Lee. A mudança foi publicada no Diário Oficial pela Lei nº
18.151.
Saúde.
Em
1996, sofreu uma queda da varanda no segundo andar de seu sítio,
esfacelando o côndilo maxilar, o que levou a uma cirurgia para colocação
de pinos de titânio. Depois da cirurgia bem-sucedida e diante da
possibilidade de retomar sua carreira, Rita ter-se-ia comprometido a
largar as drogas e as bebidas alcoólicas, o que, segundo uma declaração
da cantora ao programa Fantástico, da TV Globo, só o fez totalmente em
janeiro de 2006, depois de procurar ajuda numa clínica de reabilitação, a
qual ela chama de "hospício", conseguindo frequentar palestras e fazer
tratamento, obtendo êxito. Em maio de 2012, Rita declarou sofrer de
transtorno bipolar.
Morte.
Em
maio de 2021, quando tinha 73 anos de idade, realizou um exame de saúde
de rotina e foi diagnosticada com um tumor primário no pulmão esquerdo.
Os médicos que a diagnosticaram previram uma sobrevida de três a quatro
meses. Ao longo do tratamento, o câncer entrou em processo de metástase
e a cantora teve de iniciar uma quimioterapia. Em abril de 2022, novos
exames indicaram a ausência de um dos tumores, apelidado por ela de
"Jair", em referência ao então presidente Jair Bolsonaro. Ainda assim, a
doença continuou a se espalhar pelos órgãos de Rita.
Em
fevereiro de 2023, Rita foi internada no hospital Albert Einstein, em
São Paulo, em estado "extremamente delicado". Algumas horas após a
informação ser divulgada, o marido da cantora, Roberto, disse em suas
redes sociais que a internação seria "para exames e avaliações" e pediu
privacidade. Rita obteve alta no mês seguinte. Desde então, ela entrou
em cuidados paliativos, sendo acompanhada por duas enfermeiras. Nesse
ponto, havia perdido a capacidade de andar, estando instalada em um
quarto de hospital.
Em 8 de maio de 2023, seu estado de saúde
piorou novamente e ela morreu cercada de sua família, em seu apartamento
em São Paulo. Sua família anunciou que seu velório ocorreria no
Planetário do Ibirapuera em 10 de maio, sendo aberto ao público. O
presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, decretou luto oficial
de três dias em pesar pelo seu falecimento. "Uma artista a frente do seu
tempo. Julgava inapropriado o título de rainha do rock, mas o apelido
faz jus a sua trajetória", afirmou em nota.
Segundo o jornal
Correio Braziliense, Rita Lee deixou uma herança estimada em cerca de 30
milhões de reais. Além do patrimônio, que rende direitos autorais, a
artista deixou negócios, imóveis e uma extensa gama de investimentos.
Outros trabalhos.
Rádio.
Após
o rompimento de seu contrato com a Som Livre, em 1986, Rita dedicou-se —
com a parceria do amigo escritor Antonio Bivar — a um programa de rádio
chamado Rádioamador, na 89 FM A Rádio Rock, que escreveu e apresentou
adotando o nome Lita Ree e interpretando vários personagens.
Literatura.
Infantil.
Entre
1986 a 1992 escreveu quatro livros infantis, tendo como protagonista o
rato cientista Dr. Alex. Em 2013 publicou o livro Storynhas, ilustrado
por Laerte. Em 2019, retoma suas obras infantis com muito sucesso com
Amiga Ursa: uma história triste, mas com final feliz.
Biografia e outros.
Com
um grande sucesso, a cantora lançou a sua primeira autobiografia, em
2016, chamada Rita Lee: uma autobiografia. O livro traz a escrita
característica de Rita e a participação de um personagem, Phantom, que
na verdade é Guilherme Samora, editor e melhor amigo de Rita, como ela
mesma diz no texto. Phantom aponta esquecimentos e outras informações. A
obra tornou-se um best-seller e foi o mais vendido do período. Em 2017
lançou um livro de contos chamado Dropz e, em 2018, a edição de luxo
FavoRita, em parceria com Samora. Em 2023, sua segunda obra
autobiográfica, intitulada Rita Lee: outra autobiografia, é lançada
postumamente. Em 2024, O Mito do Mito: de fã e de louco, todo mundo tem
um pouco, chega ao mercado como segundo livro póstumo da cantora.
Televisão.
Em
Os Trapalhões (1977) interpretou uma fotógrafa num concurso de miss. Em
Top Model (1989), escrita por Walther Negrão e Antônio Calmon,
interpretou Maria Regina, a esotérica Belatrix, uma das ex-mulheres do
surfista Gaspar, interpretado por Nuno Leal Maia. Em Vamp (1991), também
escrita por Calmon, Rita era a roqueira-vampira Lita Ree, amiga da
protagonista Natasha, interpretada por Cláudia Ohana. Ainda no ano de
1991, Rita ganhou um programa na MTV Brasil intitulado TVleezão.
Em
1997 participou do sitcom Sai de Baixo, no episódio "Presepada de
Natal", como Scarlet Antibes, uma prima do personagem Caco Antibes,
interpretado por Miguel Falabella. Em 2002 passou a co-apresentar o
programa de televisão Saia Justa, no canal pago GNT (Globosat), ao lado
de Mônica Waldvogel, Marisa Orth e Fernanda Young, Rita se despediu do
programa em 2004. Em Celebridade (2003), fez uma participação especial
como ela mesma e contracenou com Maria Clara, interpretada por Malu
Mader.
Em 2005 comandou, ao lado do marido Roberto de Carvalho, o
talk show Madame Lee, também transmitido pela GNT. Em 2010 foi
convidada pelo diretor Jorge Fernando para regravar seu sucesso de 1985,
Ti Ti Ti. A música foi usada na abertura do remake da novela no horário
das 19 horas. Rita fez uma participação no último capítulo fazendo um
show, cantando esta música. Em 2017 participou do documentário
Laerte-se, da Netflix.
Legado.
Lee
tornou-se um ícone da cultura pop brasileira, ao longo de sua carreira.
A artista é considerada a maior estrela da história do rock brasileiro,
desde quando foi nomeada de "Rainha do rock brasileiro", por ser a mais
bem sucedida do gênero. Thales de Menezes, escreveu para a Folha de São
Paulo, que "ela foi fundamental no desenvolvimento do gênero no país. A
começar por surgir em cena num período atribulado, quando o rock era
considerado um "vilão cultural" por nomes importantes da música e das
artes brasileiras". Editores do blog Ao Redor avaliam que "o rock
encontrou em Lee uma voz que ecoa liberdade, inovação e resistência. Ela
não apenas adaptou o rock ao cenário cultural brasileiro, mas também o
enriqueceu com suas próprias influências e perspectivas". Thiago Vieira,
da Universidade Estadual Paulista, avalia que "especificamente no ano
de 1967, sua aparição pública foi bastante importante para aquele
momento da música popular brasileira. Era a explosão do Movimento
Tropicalista, que foi fundamental na renovação da canção popular no
Brasil. Isso se deu de forma contundente pela presença das guitarras
elétricas, pela presença de outra linguagem e sobretudo por expor os
muros que separavam a música brasileira da música estrangeira". O autor
acrescenta que a artista teve um papel enorme e diferenciado na
assimilação da linguagem do gênero no país, que foi além da música e
envolveu também questões de comportamento: "Apesar das influências do
rock londrino e experimental que ela e os Mutantes trouxeram, Lee sempre
fez uma defesa ampla de uma linha mais libertária, de ser uma mulher
que estava ancorada nos seus direitos, na busca de seus direitos,
acompanhando movimentos que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos.
Neste grande bojo da contracultura, ela vai trazer uma atitude ligada ao
rock. Não apenas a sonoridade, mas também uma atitude transgressora,
underground. Isso é bastante importante para entender como o seu papel
colaborou para renovar, ao longo da década de 1960, a linguagem da
canção no Brasil. Apesar de se tornar mais pop ao longo da carreira, Lee
foi uma artista de muitas facetas, mas nunca abriu mão de sua
singularidade".
Escrevendo para a para a revista Veja, Felipe
Branco comentou que Lee, "desde d'Os Mutantes, já demonstrava seu
pioneirismo: foi uma das primeiras mulheres a tocar guitarra, um
instrumento tido como exclusivamente masculino. Ela também foi uma das
poucas artistas femininas da época que, além de intérprete, compunham as
letras e os arranjos das músicas". Fernando Pereira, professor da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, observa: "Na década de 60, ela e
Os Mutantes não vendiam apenas música. Vendiam, também, um estilo de
vida. E como isso incomodou. Assim, boa parte da informação sobre a vida
da artista se confunde com a informação de sua carreira. Ao contrário
de outros cantores e compositores, que conseguiram preservar um pouco de
sua intimidade, a vida de Rita foi pública durante toda sua existência
e, por isso, virou história. História da música popular brasileira". Lee
foi uma das primeiras artistas do segmento a abordar abertamente a
liberdade e os direitos das mulheres, trazendo em suas letras uma
abordagem dos anseios femininos sem limitações. Ao longo de sua
carreira, usou suas músicas e a sua própria imagem para lutar pela
liberdade e igualdade das mulheres, combatendo os estereótipos de gênero
dentro da indústria musical e na sociedade como um todo. Isso lhe
rendeu perseguições políticas e diversas tentativas claras de censura.
Em suas composições, falou de temas tabus na sociedade, como aborto,
homossexualidade, drogas — e dedicou boa parte da sua obra à defesa da
emancipação feminina. Em uma entrevista teria dito: “Preconceito é uma
enfermidade, uma doença horrível, e deve ser tratada”. Ousadias como
essas que, de acrodo com Branco, "fizeram dela, sim, a ovelha da música e
uma das maiores artistas do país". Sobre esse aspecto, Jéssica
Rodrigues Araújo Cunha, autora de A Importância da Produção Musical de
Rita Lee (2010), citou o lirismo de "Mania de Você" como um exemplo,
alegando que "demonstra que o sexo pode ser buscado pela mulher com o
objetivo do prazer, já que na sociedade brasileira ainda pairava – e
paira – sobre o ar, certa moralidade relacionada ao sexo e a mulher".
Já
José Antônio Barbosa, em seu artigo As faces de Eva: o universo
feminino no léxico de Rita Lee, explica que através da faixa "enuncia-se
um discurso sobre o amor, a relação conjugal e o desejo sexual de forma
despojada e nunca antes explicitamente tratada na canção de uma
compositora e cantora feminina". Da mesma forma, Luiz Tatit assinala que
as faixas "falam sobre o amor, a relação conjugal e o desejo sexual de
forma despojada, como mulher alguma havia feito antes na música
brasileira e" é possível verificar que ", a partir das canções da
artista, o ponto de vista da mulher sobre assuntos variados – antes
restritos ao unverso masculino – começa a ser observado e discutido".
Renato Gonçalves Ferreira Filho, em Rita Lee, mulher-alienígena, afirma
que "sob certo aspecto, ela se mostrava em linha de sintonia com
composições de homens e mulheres que emergiram com força na música
brasileira, especialmente nos anos 1970, pondo em evidência o corpo como
território do prazer, em contraposição à moral sexual hegemônica". Para
a acadêmica feminista Ana Karla Marcelino, a artista foi "uma notável
representante musical da luta contra a ideologia patriarcal dominante,
escrevendo músicas que criticam os estereótipos atribuídos às mulheres",
citando "Elvira Pagã" como um desses exemplos, de "mulheres por ela
homenageadas", que "representam a quebra de paradigmas e uma crítica aos
estereótipos femininos". Pereira comenta que a artista colocou, como
poucas, o feminino em pauta, "não o feminino feminista. Mas o feminino
da mulher que entrava cada vez mais no mercado de trabalho, que, ainda
timidamente, começava a encontrar melhores cargos; da mulher divorciada
que criava os filhos e tinha que se abrir a novas experiências. Rita
sintetizava o feminino da mulher-metrópole. Meio mãe, meio dona-de-casa,
meio funcionária, meio musa, mas principalmente a mulher cidadã.
Lee
e seu trabalho foram referência para vários artistas, incluindo Marisa
Monte, Pitty, Manu Gavassi, Paula Lima, Zélia Duncan, Preta Gil, Ana
Carolina, Maria Rita, Zezé Motta, Luísa Sonza, Paula Toller, Paulo
Ricardo, Titãs, Cassia Eller, Daniela Mercury, Claudia Leitte, Wanessa
Camargo, Anitta, Julia Mestre, Chitãozinho e Xororó, Fernanda Takai, Ana
Caetano, Kell Smith, Filipe Catto, Badi Assad, Duda Beat, Larissa
Manoela, Iza, Dinho Ouro Preto, Érika Martins, Mel Lisboa e Adriana
Calcanhoto.
Em 2024, a Prefeitura do Rio homenageou a cantora com
o Parque Rita Lee, situado dentro do Parque Olímpico do Rio de Janeiro.
Será tema do enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre
Miguel no Carnaval do Rio de Janeiro para 2026 com o título "Rita Lee: A
Padroeira da Liberdade". Texto: Wikipédia.

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